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17 fevereiro 2025

Quando conheci seu Clídio e família e Elefante de Olinda.



O ano era 1971. 

Chegávamos pra morar em Olinda, vindos da Vila dos Comerciários, depois de passarmos dois meses na Cidade Marechal Castelo Branco, na Zona Sul do Recife, conjunto residencial do Grupo LUME, que ficava por trás do Geraldão.

Era 12 de fevereiro daquele ano. Uma sexta-feira. 

Arrumamos a mudança e no dia 13, fui pra casa de vovó Maria, que morava na Conde da Boa Vista e eu fui pra lá pra brincar no corso, que começava no domingo, dia 14, indo até o sábado de Zé Pereira, dia 20 de fevereiro naquele ano. (Não sabíamos, ainda, que no próximo Carnaval o corso seria proibido pela ditadura militar que se instaurou no Brasil em 1964).

Voltei pra Olinda no domingo de Carnaval, dia 21. 

Mamãe juntou os cinco filhos e fomos, depois do almoço, pro Quartel-general do Frevo, que ficava na frente do Colégio São Bento, na Sigismundo Gonçalves. Ali, víamos desfiles de agremiações carnavalescas que não conhecíamos direito. Era muito massa fazer o passo quando as orquestras passavam tocando um frevo rasgado na avenida. Fizemos isso também na segunda.

Na terça-feira gorda, o desfile era na Avenida Getúlio Vargas, pois Pitombeira saía do Samburá e Elefante saía de Zé Pequeno. E seguiam no rumo do Sítio Histórico. Vassourinhas também saía nessa avenida na terça-feira, mas não me lembro de onde.

Passou Pitombeira e depois, Elefante. Ainda não conhecíamos direito as músicas das agremiações. Quando Elefante passou, tocando seu hino, fiquei arrepiado e me apaixonei por Elefante e aprendi logo seu hino:

Ao som dos clarins de Momo

O povo aclama com todo ardor

O Elefante exaltando as suas tradições

E também seu esplendor.



Olinda, este meu canto

Foi inspirado em teu louvor

Entre confete e serpentina

Venho te oferecer

Com alegria, o meu amor



Olinda!

Quero cantar

A ti

Esta canção:

Teus coqueirais, o teu sol,

O teu mar

Faz vibrar meu coração

De amor, a sonhar

Minha Olinda sem igual

Salve o teu carnaval!



Fiquei todo arrepiado com o frevo e fui procurar saber de quem era essa música e decorei a letra, que era de Eduardo Wanderley e Clídio Nigro fez a música.

Passamos uns perrengues e tivemos que sair do nosso apartamento, que foi alugado e assim, alugamos um apartamento no Ed. Dalva Cardoso, também no Bairro Novo, na Av. Getúlio Vargas.

Do outro lado da avenida, quase de frente ao prédio em que estávamos, moravam numa casa o casal Seu Clídio e dona Laura, com Dora, Cláudia (Cada) (que conheciam mamãe) e Fernando (Índio).

Eu já fumava, apesar de ter doze anos e mamãe sabia1. Então, sempre depois de jantar, eu ia passear pela avenida Beira-mar, no rumo de Casa Caiada fumando um cigarro.

Numa noite dessas, conheci um senhor, que também fazia esse percurso. Descobri que era seu Clídio, o pai das amigas de mamãe e de Índio, que já era meu amigo, pois, como eu, era adolescente também nessa época e tínhamos um amigo comum, Kléber (que eu conhecia da Vila dos Comerciários e tinha vindo morar em Olinda havia mais tempo que eu). 

Daí pra frente, seu Clídio me contava as histórias das músicas dele, de como surgiu Elefante, falava dos carnavais que passaram, de Donzelinhos, de outras agremiações carnavalescas da cidade que àquela época já não mais existiam e as que ainda sobreviviam… Eu escutava seu Clídio maravilhado. Desde quando eu tinha 12 anos.

Aliás, vale uma observação, foi nessa casa que tomei pela primeira vez uma bebida super-refrescante: vaca preta (sorvete de creme com Coca-cola), que Dora, filha de seu Clídio me ofereceu.

Em 1977, ano que desfilei no Clube Carnavalesco Misto Elefante de Olinda, a Diretoria de Elefante conseguiu a cessão do Clube Atlântico para fazer um baile de Carnaval e seria em homenagem a seu Clídio. Eu fui escalado pra levá-lo ao Clube para receber a homenagem.

Depois, no dia 18 de fevereiro, sexta-feira da semana pré-carnavalesca, era o dia do trote de Elefante. Dessa vez, fiquei como sinal de onde seu Clídio estava. Eu ficaria em pé, ao lado dele na janela pra sinalizar ao porta-estandarte e ao maestro, onde se encontrava Seu Clídio, que, com sua família estava morando na rua Prudente de Morais. Passou o estandarte, fez a reverência, a orquestra parou na frente da casa e tocou Olinda Nº 2 e Banho de Conde e foi tão emocionante, pois foi uma surpresa pra ele que pensamos fazer eu e Carlos Eugênio, que era um dos diretores do Clube. Sei que nessa homenagem chorávamos eu, seu Clídio, mamãe e todo mundo que estava na casa nessa hora. Foi um grande momento.

Carlos Eugênio me chamava de "Ronquinho" porque eu roncava quando gargalhava. (Hoje ainda ronco ao gargalhar, mas não é sempre). Ele era noivo da irmã de um amigo do Colégio. E quando eu soube que ele era da Diretoria do Clube, expressei meu desejo de desfilar. 

Tinha uma cota a cumprir e ele ajudou muito na minha cota porque eu não tinha condições de suprir toda ela. Vendas de rifas, camisas, macacões e até mesmo bebidas das festas, mas eu era muito tímido e não conseguia vender nada. Ele dizia: “Vou botar na cota de '‘Ronquinho’'”. Assim, pude desfilar sem problemas.

Também é importante dizer que nos anos 1970, o Bairro Novo sediava a já tradicional troça Virgens do Bairro Novo e também o Bloco dos 100 grilos e o Bloco Chapéu de Bode que era um bloco só de homens, assim como as Virgens.

1Nessa época, fumar era o “Sucesso” (Hollywood), “Um Raro Sabor” (Carlton), “Coisa de Cabra Macho” (Arizona). Propaganda de cigarros era toda hora na TV, no rádio, em cartazes de rua... Só não era permitido fumar nos cinemas do Centro (sala de projeção), pois era permitido na sala de espera, e nos ônibus do Recife. Nos ônibus intermunicipais, como os de Olinda, era "proibido", mas ninguém era molestado se fumasse. Até em banco se fumava.









17 maio 2024

Dia Mundial Contra LBGTQI+fobia 2024

 

Hoje, 17 de maio de 2024, comemora-se mais um Dia Mundial Contra a LGBTfobia.

Foi num dia como este, nos já longínquos anos 1990, que a Organização Mundial da Saúde deixou de considerar pessoas homossexuais como desviados/as e transtornados/as sexuais.

Lembro que a luta foi árdua. Dos anos 1980 para cá, muita coisa mudou: deixamos de ser tratados pela mídia como culpados pelos nossos assassinatos, diversos direitos civis reconhecidos pelo arcabouço legal do país. Passamos a ter direito a casar com nossos/as companheiros/as, tivemos reconhecido o direito de adotar filhos/as.

Antes, pessoas solteiras podiam adotar crianças, mas, caso fossem pessoas homossexuais, tinham de se esconder, pois, se durante o processo, a Promotoria ou o Serviço Social tivesse conhecimento da homossexualidade da pessoa requerente, era comum ser contra a adoção e tínhamos esse direito negado.

Porém, ainda resta muita coisa a conquistar. O Brasil é o país que mais assassina pessoas LGBT pelo simples motivo de serem quem são. O ódio que muitos sentem de nós é algo avassalador. Travestis e pessoas transexuais não têm sequer o direito de fazer suas necessidades biológicas em paz. O constrangimento é a tônica.

Afinal, essa gente não merece ter paz. Quem mandou escolher essa vida?

Acontece que só sendo muito imbecil escolher ser discriminado, vilipendiado. Depois de muitos lobotomizados, e de outros tratamentos ultrajantes e degradantes, a OMS já admite que não somos doentes mentais, muito menos sem-vergonha! 


 

Somos GENTE, “com cara, dente e nariz pra frente”!

Vamos, gente! A luta, ainda, continua!

Salve 17 de Maio: Dia Mundial Contra a LGBTQI+fobia!

15 dezembro 2023

Por uma TDF Raiz!

Todo mundo que me conhece sabe que uso LibreOffice para escrever, fazer edição de textos, preparar textos para serem publicados. Isso desde "dois mil e antigamente".

Por causa disso, sempre participei de fóruns, listas e grupos de usuários do LibreOffice pra tirar dúvidas. Assim, cheguei, em 2021, no Time Brasileiro de Tradução e Revisão da Documentação do LibreOffice. Depois, me tornei membro da Fundação TDF (The Document Foundation), que tem sede em Berlim, Alemanha.

Este ano teremos eleições para o Conselho Administrativo da TDF e temos uma candidata brasileira ao Board. É Eliane Domingos.

Na quarta-feira, dia 13 de dezembro, tivemos um debate dos candidatos ao Conselho com a Comunidade Brasileira que, além de mim, estavam nossa candidata, Eliane Domingos, Timothy Brennan Jr, Túlio Macedo, Olivier Hallou, Gustavo Pacheco, entre outros e foi muito bom, com a participação de candidatos do mundo inteiro respondendo questionamentos feitos por brasileiros.

 

Por uma TDF Raiz!

 

Vídeo do debate com brasileiros.

 


19 setembro 2023

Pastores de "ovelhas" descerebradas...

Segundo determinada excrecência da política pernambucana, que atende pela alcunha de “pastor...”, o casamento “representa uma realidade objetiva e atemporal, que tem como ponto de partida e finalidade a procriação, o que exclui a união entre pessoas do mesmo sexo”1.

Ora, conheço uma porrada de gente heterossexual, que se casou não pra procriar, mas pra serem felizes, companheiros de vida, sem querer exatamente "procriar".

De acordo com esse tipo de “pensamento”, retrógrado, anacrônico, até mesmo enfadonho(!), pessoas idosas não devem se casar também, uma vez que mulheres depois de uma certa idade, não conseguem mais procriar, por mais que desejem. Bem como homens e mulheres heterossexuais sabidamente estéreis também não devem ter direito ao casamento.

Enquanto o país passa por problemas sérios de fome, racismo, falta de escolas, analfabetismo, existem "deputados" que estão preocupados com a cama dos cidadãos e cidadãs que pagam impostos. É muita falta do que fazer!

1“Comissão da Câmara pode votar hoje PL que proíbe união homoafetiva”, disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2023-09/comissao-da-camara-pode-votar-hoje-pl-que-proibe-uniao-homoafetiva#. Acesso em: 19.set.2023.


 

17 setembro 2023

22ª Parada da Diversidade de Pernambuco, Boa Viagem, Recife, 17 de setembro de 2023

Esta Parada (22ª Parada da Diversidade de Pernambuco, 17 de setembro de 2023), pra mim, foi marcante: primeiro porque, desde que eu participo do Fórum e que fico na Portaria do palco (e isso já faz alguns anos!), pela primeira vez, meu companheiro Ivanildo foi, com minha irmã Kathleen.

Depois, fui para o trio do Coletivo de Lésbicas, mas como ultimamente fico com o estômago meio embrulhado com outra cerveja que não seja Heineken. (que bicha velha mais metida! Só quer ser as "pregas de Odete!"), desci para comprar uma lata, pois estava querendo molhar a garganta. Nisso, findei perdendo o trio das meninas e sendo chamado por Anderson, do trio Ser Coletivo, no qual subi. Irene Freire fez uma fala nesse trio, aí, eu fui descer novamente pra pegar outra latinha de cerveja. Eu e Irene descemos juntos e ela me chamou pro trio do Bloco da Diversidade.

Músicas de carnaval, o que me atiçou a verve de folião. Depois, a presidenta da UNE fez um discurso que me emocionou a ponto de chorar! Lembrei do início do GATHO, quando a gente começava a brigar pra ter o direito de viver livremente, amando, sentindo prazer. Cobrando o devido respeito da sociedade.

E como agradeci à vida por ver, ouvir, viver esse momento do discurso da líder estudantil (eu também fiz movimento estudantil.) E lembrar da luta inclusive contra o discurso da esquerda tradicional, que nos rotulava de “decadência do capitalismo”

E eu, aqui, tendo testemunhado tudo isso, me emocionei com o discurso da "Universidade Fora do Armário"!.

Agradeço a todo mundo que estava junto conosco hoje. (Em especial a Rivânia, Anderson, Irene)

Parabéns pra nós! Esperando estar bem no próximo ano pra poder, mais uma vez, participar da Parada da Diversidade!

Muito obrigado, pessoas queridas do Fórum LGBT de Pernambuco!

Para o ano tem mais! E já tem data: 15 de setembro de 2024!

Fotos: Ivanildo Oliveira:

 

 




 

25 agosto 2021

Lançamento do Guia do Writer 7.1 (LibreOffice)

 Muitos dos meus amigos sabem que eu sou fã de uma suíte de escritório que é gratuita e que resolve muito bem tudo o que preciso para escrever e fazer contas. Essa ferramenta é o LibreOffice. Inclusive já coloquei o prêmio que recebi da TDF, logo aqui, à esquerda, por participar ativamente da comunidade brasileira de usuários da melhor suíte de escritório, na minha opinião. Se quiser ir ao site do LibreOffice, é só clicar no meu troféu aqui do lado esquerdo.

Estamos lançando o livro Guia do Writer 7.1.

Podem seguir o link:

https://pt-br.blog.documentfoundation.org/2021/08/23/chegou-o-guia-do-writer-7-1/











17 maio 2021

Dia Internacional Contra a LGBTfobia: 17 de maio de 2021

 

Há cerca de 30 anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS), finalmente decide retirar de sua Classificação Internacional de Doenças (CID), o código 302.0 que dizia que o “homossexualismo” era “desvio e transtorno sexual”. Lembremo-nos que a luta pela exclusão desse código começou nos anos 1970. As associações estadunidenses de Psicologia e Psiquiatria não seguiam mais essa classificação e apoiavam a luta de pessoas homossexuais que defendiam o fim desse código ainda naquela década.

Com base nesse código, muita tortura foi cometida contra pessoas que não se “enquadravam” no modelo heteronormativo. Desde internamento e tratamentos com hormônios, medicamentos psicotrópicos, eletrochoques e até mesmo lobotomia foram prescritos pelos médicos a fim de “obrigar” pessoas homossexuais a serem heterossexuais. E o resultado? Pessoas mais adoecidas ainda, porém com um detalhe: ninguém deixou de ser quem era. Mesmo “dementes”, depois da lobotomia, as pessoas não deixavam de ser quem eram. Podiam até deixar de ter apetite sexual, mas suas orientações sexuais jamais foram alteradas.

Aqui no Brasil, na década de 1980, com a explosão de grupos de defesa de pessoas homossexuais, lembro que foi uma das primeiras grandes lutas do povo “homossexual”: lésbicas, gays, travestis…

Nas eleições de 1982, em Olinda (PE), com o apoio de membros do Grupo de Atuação Homossexual (GATHO), o candidato a vereador mais votado foi um deficiente físico que apoiou nossa luta contra esse código da OMS. O vereador era Fernando Gondim da Mota. Não era homossexual, mas apoiava nossa causa e apresentou, creio que em 1984, na Câmara Municipal de Olinda, uma proposta de Moção de Repúdio a essa norma da OMS, a qual foi aprovada. Infelizmente, na época, não conseguimos sensibilizar nenhum vereador do Recife, ou de qualquer outra cidade da Região Metropolitana do Recife. Vale dizer também que, graças a esse mesmo vereador, foi incluída, no texto da Lei Orgânica de Olinda, promulgada no ano de 1990, a expressão “orientação sexual” no capítulo referente às proibições de discriminação no nosso município.

Finalmente, em 17 de maio de 1990, a OMS excluiu esse código da sua CID. Deixando a HOMOSSEXUALIDADE de ser um “desvio e transtorno sexual” para ser simplesmente uma das expressões da sexualidade. Essa data ficou conhecida inicialmente por IDAHO (International Day Agaisnt Homophobia) e hoje é comemorada por todas e todos LGBTQIAP+ como o Dia Internacional de Luta Contra a LGBTfobia.

Viva o Dia 17 de Maio!